Charafiz de El Rei

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Chafariz Del Rei – Alfama

Al Hama, assim chamavam à terra de onde brotavam fontes com abundância. O significado desta palavra árabe é fontes ou banhos.
Alfama, assim é chamado no nosso tempo o bairro alfacinha, teve em tempos idos, locais termais onde se ia a banhos para cuidar das doenças, que em outra altura falarei. A água brota de uma falha geológica ali existente, facto corroborado por Carta Geológica do Concelho de Lisboa.

É sobejamente conhecido, que anterior à construção do Aqueduto das Águas Livres, Lisboa sofria com a falta de água. Como é possível correndo o Tejo pela cidade, não haver água potável? As marés são a causa… em preia- mar ou maré alta, o mar adentra pelo estuário do rio tornando a água salobra. Assim Alfama os seus chafarizes (Chafariz de dentro e Chafariz del Rei) terem tido um papel fulcral no abastecimento de água em Lisboa. E neste artigo vos falarei sobre o Chafariz del Rei, o mais antigo de Lisboa.

Para falarmos deste Chafariz teremos de remontar á ocupação árabe da cidade, mas documentalmente só vem referido no Reinado de D. Afonso II, sendo então conhecido como o Chafariz de S. João da Praça dos Canos. Foi renomeado Chafariz del Rei, pois D. Dinis ordenou que se efetuassem algumas alterações estruturais ao local.

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Na segunda metade da centúria de 1300, Lisboa vê-se a braços com diversos acontecimentos trágicos. Em 1350, houve uma grande migração de população para a cidade fugindo da peste negra e como consequência muita fome e miséria, como se não basta-se, entre os anos de 1355-56 e 1364-65 uma crise de cereais se abateu sobre a Cidade, foi igualmente sacudida por violentos sismos e em 1367 ou 68 foi um grande incêndio que consumiu toda a zona da Ribeira (a zona mais rica). Eis que em 1673 de dá o cerco a Lisboa pelos Castelhanos sob as ordens do Rei Henrique II , era D. Fernando o monarca de Portugal, o chafariz secou por  esta altura. Os Castelhanos acabaram por partir e levantar o cerco, mas deixaram um rasto de destruição fora das muralhas da cidade. Foi então que D. Fernando mandou edificar uma nova muralha, ficando conhecida como muralha fernandina. Chafariz ficou adossado à muralha, com forma espaldar com um tanque à frente. Em1487 nova intervenção é feita no Chafariz desta vez por D. João II que ordenou por Carta Régia o encanamento da água até ao mar para facilitar o fornecimento de água aos bateis ali ancorados. Aliás foi neste local que a os caravelas dos descobrimentos e posteriormente que faziam o comércio com a índia se vinham abastecer de água potável.

No século XVI, corria o Reinado de D. Manuel, o chafariz era um recinto com muro, estando por baixo de três arcadas sobre colunas ornadas com o escudo régio e duas esferas armilares. Em 1517 , o chafariz foi coberto por cantaria com o patrocínio de Lopo  de Albuquerque. Por esta altura das 3 bicas que possuía passou a ter mais 3, um total de 6 e cada uma com a representação da cabeça de um animal (que ainda não consegui identificar) e visto ser um local de muita afluência, tornou-se necessário legislar a utilização do chafariz: a primeira torneira para cântaros, cantarinhas, quartas, odres, barricas e pipas dos escravos, a segunda para os mouros das galés, a terceira e quarta para os homens e mulheres brancos, a quinta para mulheres pretas e índias e a sexta para moças brancas.
A partir de 1614 , devido ao enfraquecimento do caudal do chafariz, a Câmara de Lisboa teve de adquirir poços particulares à volta para garantir que a água continuava a correr.
Em 1700 há uma relação do chafariz, onde se refere que atrás das bicas, está uma arca, onde se conservava água, com cerca de 50 palmos, 38 de largo e 8 de fundo, sendo descoberta pela parte de cima, com paredes de cantaria e da água para cima em alvenaria, ficando fechado e tapado sem fresta alguma; o fundo é de areia amarela, misturada com barro e rocha viva, onde nascem vários olhos de água, tem uma “alfurja”, que serve para despejos das águas dos telhados interiores.
No Séc. 18 acrescentaram-se mais 3 bicas, ficando um total de 9. Infelizmente com o tempo foi-se degradando o chafariz, até que em 1744 desabou a frontaria. Por esta altura há registo que as águas do chafariz trazem a cura a diversas maleitas como: catarro,  doenças de fígado e nervos. É de salientar que as águas de Alfama eram comparadas às Caldas da Rainha. As águas brotavam das nascentes à temperatura mínima de 20ºc e mais alta os 34ºc. São águas bicarbonadas cloretada- sódicas ou cálcicas.

 Em 1755 ficou totalmente destruído pelo terramoto de Lisboa. Só em 1861 ficou definido o traçado actual. Já tem uma 2ª platibanda, ou seja, uma faixa horizontal (muro ou grade) que emoldurava aparte superior do edifício. O Espaldar é decorado com pilastras (pilar fundido na parede) Almofadas e frisos em cantaria, formando caixões retangulares sendo que o pano central apresenta o escudo de armas nacional encimado por frontão. Caixões laterais com as caravelas da cidade.

4-Chafariz em 1861-File0184Chafariz em 1861 – Archivo Pinturesco

ImageChafariz nos dias de hoje

Dada a afluência de pessoas e desacatos o Senado decidiu fazer a estabelecer a sua utilização da seguinte forma:

Uma torneira era para os negros forros; outra para os moiros das galés; outra para as moças brancas; outra para os homens brancos; outra para as índias, negras, escravas e lacaios.

No século XIX este Chafariz tinha nove bicas, dez Companhias de Aguadeiros, dez capatazes, trezentos e trinta aguadeiros e dois ligeiros. Os seus sobejos iam para o mar.

Crianças no Chafariz em 1907 – Foto Joshua Benoiel

rei (800x535)Chafariz nos dias de hoje

Este Chafariz situa-se na Rua Cais de Santarém, perto do Museu do Fado. Hoje em dia, como podem constatar pelas imagens, não tem a afluência do passado. Não jorra água, e está ao abandono, embora que por cima do Chafariz se situe um Hotel de charme com o nome – Palacete do Chafariz de El Rei.

Fontes:
Revelar LX
Monumentos
Igespar

Fotos:

Alexandre Cibrão
Arquivo do Google

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Uma resposta para Charafiz de El Rei

  1. Ana Figueiredo disse:

    Texto interessante, no entanto há um lapso (pontualíssimo) mas que poderá induzir em erro ,ou gerar alguma confusão, sobretudo para os alunos que cada vez mais utilizam este tipo de informação nos seus trabalhos escolares. O lapso prende-se com a data do cerco da cidade de Lisboa por Henrique de Trastamara em 1737 e não em 1673.
    Ana Figueiredo

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