Igreja de S. Domingos da Cidade

Fachada Igreja de S. DomingosIgreja de S. Domingos da Cidade

Situada no lado norte do Rossio, eis uma das Igrejas mais antigas e mais belas de Lisboa. Datada do Séc. XIII, fazia parte do Convento de S. Domingos que foi mandado erigir no reinado de D. Sancho II.

O terreno onde hoje assenta do edifício eram outrora terrenos lamacentos, foram conquistados ao Rio Tagus ou Tejo e a ordem que o habitava, a Ordem de S. Domingos, segundo Frei Luís de Sousa foi introduzida no nosso País em 1218, antes do fundador S. Domingos de Gusmão ter falecido. o primeiro local que habitaram foi em Montejunto, perto de Alenquer.

Uma pedra simbólica foi lançada em 1241 ou 42, pelo Bispo de Ratisbona e assim se deu início à sua construção que demorou cerca de 10 anos.
Era um edifício de traça primitiva e medieval de apenas uma nave que se adaptava na perfeição ás crenças de  desprendimento dos frades dominicanos.

O Rei D. Afonso III restaurou e ampliou o Convento e doou à Ordem as terras que rodeavam o Convento que actualmente são a Praça da Figueira.

Muitas memórias se guardam nas pedras deste templo. Foi neste local, que em 1383 o Mestre de Aviz ouviu o povo que o considerava defensor do Reino e que lhe foi pedido para não embarcar para Inglaterra. Pedido que acedeu e a história desenrolou-se…Foi nesta Igreja que orou o Santo Contestável, D. Nuno Álvares Pereira, mas nem a presença de tão excelsas personalidades ajudaram na dissolução do karma deste famigerado local. Famigerado por ter como vizinho o Palácio dos Estaus ou o Palácio da Inquisição, cujas sentenças cegas proferidas em nome de Deus resultaram em horror do cheiro de carne humana queimada nas fogueiras…Dali saiam os condenados de heresia para serem executados em plena Praça do Rossio. Ali também sucedeu em 1506 o massacre do qual já vos dei conta no post anterior. A 19 de Abril, num Domingo o frenesim sanguinário apoderou-se de certos habitantes de Lisboa e de outros que se encontravam apenas de passagem e o resultado foram 3 dias de chacina de Cristãos – Novos e que no final do terça feira já pouco importava se eram Cristãos- Novos ou Velhos ou Judeus, se era homem, mulher ou criança …Tão terrível foi este acontecimento que há relatos de certos infelizes, não se sentindo seguros nas sua moradas, dirigiram-se para as Igrejas e chegaram a trepar os altares em fuga dos algozes, mas de nada adiantou…Foram exterminados sem dó nem piedade. D. Manuel ordenou o encerramento da Igreja/Convento, até porque conforme já referi no post anterior, 2 frades dominicanos acirravam a plebe a cometer os assassinatos prometendo 100 anos de perdão. Os dois acabaram crepitando na fogueira e neste caso o fogo foi justiceiro.

Por esta altura, a Igreja era riquíssima, possuía 12 capelas, as melhores alfaias e os mais preciosos paramentos. Consta que possuía uma imagem em prata maciça e que o andor para essa imagem era construído desse mesmo metal.

Antes do terramoto de 1755, foram efectuadas obras pelo mesmo arquitecto envolvido na construção do Convento de Mafra – João Frederico Ludovice , no reinado de D. João V.  Foi a Capela Môr, da autoria deste arquitecto em mármore negro, que sobreviveu ao terramoto de 1755. Foi reconstruída por Manuel Caetano de Sousa sob a direcção de Carlos Mardel, um dos grandes arquitectos de Lisboa pós terramoto e do Aqueduto das Águas Livres (este pré terramoto).

O Hospital de Todos os Santos e o Convento, após o terramoto transformaram-se em ruas.

Houve também eventos da realeza no local. Casamentos como a união de D. Pedro V e D. Estefânia ( fundadora do famoso hospital de crianças que ainda hoje labora), a união de D. Luís e D. Maria e de D. Carlos e D. Amélia.

Com o crescimento da cidade e com a Praça do Rossio a tornar-se o local de eleição para os Lisboetas, alguns monumentos foram sacrificados para a criação do acessos à Praça, mesmo assim a Igreja de S. Domingos conseguiu salvar-se enquanto a baixa Mouraria era demolida.

Em 1959, 13 de Agosto, um fogo destruiu o interior da Igreja, a talha dourada do altar foi destruída assim como pinturas de Pedro Alexandrino de Carvalho, imagens valiosas foram irremediavelmente perdidas.

Incêndio da Igreja de S. Domingos 13 de agosto de 1959

Só reabriu em 1994 e o local merece todo o nosso respeito. Nas pedras negras dos altares permanecem as maculas do incêndio, apenas o tecto apresenta uma coloração alaranjada. As pedras do chão estão quebradas devido às altas temperaturas, e mesmo sabendo o seu passado nefasto, este templo, talvez pelo fogo purificador que a consumiu, parece que soltou as almas angustiadas e aprisionadas nas suas paredes. Em cada pedra que foi tocada pelas chamas houve uma libertação, uma purificação, e o espaço exorta uma paz profunda dentro de nós como se o passado estivesse sanado e a lição aprendida.

Interior da Igreja de S. domingosInterior da Igreja (clicar na imagem para ver em pormenor)

Ninguém fica indiferente a este local.

Agora considerado um Monumento Nacional, possui relíquias como metade do lenço de Lúcia e o Terço de Jacinta duas videntes de Fátima.

Continua a ser nestes tempos que correm uma Igreja simples e sem ostentações, fortemente marcada pelas cicatrizes do males que a assolaram. Só tem uma nave e a sua planta é em forma de cruz latina.

Na casa forte , atrás do altar, jaz o corpo do filho de D. Afonso III de seu nome Afonso, numa entrada para a sacristia, pela Rua da Palma  encontram-se os túmulos de Frei Luís Granada e Frei João Vasconcelos, um reformador da ordem.
D. João de Castro, está na sala dos azulejos e muito há a dizer sobre esses azulejos e claro que haverá um post dedicado apenas a eles.

Catarina Oliveira

Fontes:
Marina Tavares Dia in ” Lisboa Desaparecida”
Alfredo Mesquita in ” Lisboa” de 1903
Wikipédia
Fotos:
Alexandre Cibrão
Depósito de arquivos do Google

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2 respostas para Igreja de S. Domingos da Cidade

  1. Grata por tão rica e interessante partilha.

  2. Catia HP disse:

    Só falta dizer que é conhecida por São Domingos, mas na verdade é Sta. Justa e Sta. Rufina.

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